Monday, December 17, 2007

HISTÓRIA DA CARICATURA EM PORTUGAL (parte 8)

D. FERNANDO de SAX-Coburgo

Por: Osvaldo Macedo de Sousa

Aqui abrimos um parêntesis na observação do percurso de Nogueria da Silva para falarmos de um artista, que apesar de não ser português, não ser um humorista da imprensa, não deixou de influenciar esta arte em Portugal. O Rei-consorte D. Fernando de Sax-Coburgo. Pela morte da Rainha, em 1853 o país passa a ser governado por D. Fernando, durante a menoridade do príncipe D.Pedro, ou seja até 1855.
Se as figuras reais de D.Maria e D. Fernando foram vitimas das primeiras caricaturas soltas, neste fase jornalística serão em parte poupadas, para toda a razia satírica cair sobre os Cabrais e demais governantes. Além disso o Rei consorte era ele próprio um admirador e criador caricatural. Rocha Martins no referido texto sobre a Caricatura em Portugal (in Serões) deixa-nos o seu testemunho sobre esta figura régia:
«Um rei caricaturista
Um poder executivo chuchado pelo moderador
A aurora d'uma arte nova»
«Emquanto atacavam os seus ministros com essas satyricas figuras, o rei D. Fernando, artista precioso, principe germanico que trazia no seu lápis evocações de gnomos da sua Allemanha e diatribes aquecidas na vida peninsular, dedicava-se tambem á caricatura que fazia voga, inofensiva, graciosa, leve, mais d'apontamento que de troça, com o seu quê de discreto de risada diplomatica.»
«Em 1840, quando o pintavam como um nabo fardado, elle entretinha-se a tracejar na beira d'uma phantasia allemã, com as suas eternas figurinhas gnomicas, episódios margeantes na folha onde a composição resahe : e são trechos de corrida de touros a que assistiu e de que talvez se recordava com saudade emquanto ia desenhando as figuras do seu quadrinho. A lettra do rei marca os episodios minusculos, indica o que representam vendo-se então, depois d'uns cavalleiros que vao farpeando, toda a nota comica d'uma tourada no seu intermedio de gargalhada, com uns pretinhos da Guiné desnalgados e de pennas na cabeça correndo para os touros emquanto, já n'uma phanthasia, prepassam no meio d'elles anões bem allemães puxados por cysnes. N'outra, que talvez seja recordação d' alguma festa palaciana ou de S. Carlos, põe um homem cantando com largos gestos e um pianista de longas farripas, corcovado sobre o instrumento n’u ma intensa nota de verdade logo desmanchada por ter mettido tudo isso entre animaes fabulosos que a sua phanthasia germanica se comprasia em collocar nas cousas mais positivas.»
«Em 1836 caricaturava dois typos com a seguinte legenda : Il vecchio Cappuzi e l'amico Pitichenacaio. Onde a caricatura, poérm, se torna franca, sem receios, feita sem duvida n'uma hora folgazã pelo soberano é n'um trabalho curioso intitulado : 0 poder executivo do Pelouro da Limpeza.»
«É a carroça do lixo para a qual se atiram gatos. Se despejam caixotes ao som da campainha que o homem agita, n’uma nota viva de sátyra que torna realmente engraçado esse poder executivo do pelouro da limpeza todo achimcalhado por uns traços de lapis attico do Poder Moderador.»
Nascido em Viena d’Austria (1816) veio para Portugal para se casar com D.Maria II, e seria então satirizado como o Zé Nabo, mas em breve ganharia a admiração dos súbditos, pelas suas características assim descritas por Ramalho Ortigão: «Consomado camarada diletante, erudíssimo crítico, jovial conversador, alegre camarada de todos os amigos, ele fazia consistir uma das primeiras felicidades da sua existência no prazer de se consagrar aos que estimava com o bonhomia mais tocante, repartindo com eles as suas alegrias d’arte /…/ fazendo-lhes a história das suas gravuras e das suas faianças.»
Protector das artes, introdutor do gosto romântico, criador de pequenas obras em gravura, cerâmica… raiando o caricatural e o satírico pela forma onírica e irreverente nestes dois géneros criativos, ele era um rei amado e como tal respeitado, e curiosamente pouco caricaturado.
O humor não o criticou, amou-o acompanhando-o na vida e na morte, como o refere Raphael na nota necrológica nos Pontos nos ii de 17/12/1885: «enquanto a Corte, na sua maioria indiferentemente, vai trajar pela memória do rei o lucto exterior a que a etiqueta obriga, nós trajaremos, sinceramente, pela memória do artista, o crepe que não se vê porque só a alma o veste e o sentimento o determina».

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